COVID-19: Vírus autoritário e antissocial. E você?

O vírus que estamos tentado compreender, chegou chegando, não pediu permissão e impôs seu modo de ser. Além do que, não quis cumprimentar ninguém. Parece coisa de ficção ou talvez conspiração, tem gente que acredita nessa segunda hipótese. O vírus podemos compreender, com certeza ele deve ter um função na ordem natural, para ser o que é. Ao que tudo indica, ele não veio para humilhar ninguém apenas está fazendo o papel dele, gostemos ou não. Uma vez que nós, seres humanos, não somos vírus, deve existir uma razão para que grupos de pessoas estejam se transformando em verdadeiros ditadores, apresentando inúmeros comportamentos antissociais, não somente com relação a doença, mas também nos tratos interpessoais. Quem são eles? Esse grupo de pessoas, parece desvalorizar a vida não conhecendo a compaixão. Estão se comportando, nos momentos coletivos de lazer, como verdadeiros vírus antissociais, autoritários, transgressores e desrespeitosos. O que leva essas pessoas a participarem dessas grandes aglomerações e, apesar dos avisos, se descuidarem do uso das máscaras. Vou fazer uma consideração, não sei se totalmente correta, mas com certeza, plausível. Minha consideração Quando pensamos em vacinas para curar o COVID-19, os cientistas do mundo inteiro, procedem mapeando, rastreando e tentando compreender o comportamento do vírus a procura de um padrão. Em todo e qualquer experimento científico, esse é o procedimento usado para identificar, rastear e compreender os tipos de doenças que atingem a humanidade. Quando o padrão de comportamento é encontrado inicia-se a fase da proposta de remédios ou vacinas, isso no caso do vírus. Então, um vírus autoritário e antissocial que não obedece a regras, é rebelde e não pede licença para contaminar as pessoas, só poderá ser entendido a partir da compreensão do seu padrão de comportamento. Será que devemos, com esse grupo de pessoas, utilizar o mesmo procedimento científico para compreender suas atitudes antissociais, desrespeitosas e rebeldes com relação aos autocuidados e cuidados com o próximo? Logrando êxito, poderíamos desenvolver remédios e/ou vacinas? Sinceramente, acredito que não. E você pode me questionar dizendo: Mas porque não? Vou explicar Sabemos que mudanças de hábitos e valores, com relação a própria vida e a vida de terceiros, são socioculturais e não dependem só da força de vontade dessas pessoas; até porque, mudanças socioculturais, de modo geral, estão atreladas ao grau de maturidade emocional. Costumo dizer, que os seres humanos podem evoluir “bastante” socialmente e emocionalmente, mas ainda permanecerem imaturos. O desrespeito, o autoritarismo, as atitudes e os comportamentos antissociais acabam, no final das contas, em alta. Se você tem duvidas, procure verificar a grande quantidade de queixas de preconceitos, violências domésticas, discriminações de gêneros que surgem em pesquisas sérias. Caso você não queira agir como o vírus, sendo autoritário, procure considerar, os históricos, comportamentos e as singularidades dessas pessoas, que por vezes, podem apresentar até comportamentos suicidas. Encontrando esse tipo de pessoa diga que a luta ainda não acabou. Claro que julgar e condenar é fácil, o difícil é ajudar as famílias a elaborarem os seus lutos. Lembramos que alguns cientistas afirmam que o vírus contribui para formação da humanidade então, talvez esse traços citados anteriormente, sejam parte desse parentesco. Agora é sua vez Faça uma pequena reflexão e anote, 05 (cinco) atitudes ou comportamentos que praticou ou pratica, para desconstruir esses comportamentos, antissocial, autoritário e desrespeitosos do “vírus” que contaminou alguns seres humanos em todo o mundo. Boa sorte! Leia também: A Pandemia e Insensibilidade Caótica. O que fazer? Sebastião SouzaPsicoterapeuta de casais e famílias

Preguiça Mental: Isolar-se é preciso, esconder-se é desnecessário

É comum ouvir pessoas, dizendo que não esquenta a cabeça, que consegue relaxar numa boa, ou então, eu nunca precisei me esforçar para conseguir atingir os meus objetivos e sonhos, estou tranquilo. Vai ser assim na escola, na faculdade, no trabalho, as coisas irão acontecer no seu devido tempo. Essas pessoas tem a crença de que o tempo é aliado da preguiça mental. Isolar ou esconder? A OMS (Organização Mundial da Saúde) e os órgãos competentes recomendam o isolamento durante a pandemia e, usar essa catástrofe para fugir de si mesmo, é desnecessário. Se isolar é diferente de se esconder. A preguiça mental é uma justificativa para pessoas que tentam se esconder na sombra da “lei do menor esforço”. Durante o isolamento, essa lei perde força, pois o preguiçoso mental se dá conta que se esconder faz parte da sua praia. A preguiça mental é contagiosa e costuma contaminar e, por vezes, infectar os mais próximos. Sou preguiçoso e dai? Quando alguém adota a “lei do menor esforço” tende a passar a maior parte de sua vida, tentando ser “invisível”. O lema é: fique, sempre que possível, abaixo da linha do radar e use os seus potenciais para não ser pego pela proatividade, e não ser punido pelos ativistas mentais que acreditam que vieram ao mundo para explorar continuadamente os seus neurônios. Os praticantes da referida lei usada por algumas pessoas, por meio do recurso contagioso da preguiça mental, logo elegem a sua primeira diretriz: “Toda proatividade deve ser castigada”. Portanto a inatividade é uma benção. Tem gente que pensa: Bobagem, a preguiça mental não mata. Os neurônios Não mata, mas degenera os neurônios de qualquer ser vivo, que precisa do mínimo de energia e informações novas para sobreviver. Pensar é viver. Todo ser vivo se desenvolve e evolui pela atividade mental. Sem a capacidade de pensar, o ser humano não existiria. Por isso, isolar-se é necessário. Não potencializar as suas ações cognitivas é uma forma de se auto sabotar e evitar se deparar com fracassos e insucessos. Isolar-se, devido à pandemia, é uma forma manifesta da força de vida; esconder-se é preguiça mental, um convite à morte nossos neurônios. Como sei que você é uma pessoa sensata e está respeitando o isolamento, aproveite e procure rever aqueles projetos que não foram colocados em prática ou aqueles projetos que, num determinado momento, você teve que adiar, mesmo antes de decolarem. Esse é o momento. Deixar o tempo te levar, usando a preguiça mental como instrumento, não parece ser uma forma saudável e produtiva de tê-lo como aliado, mas sim, como adversário. Todos os dias perdemos neurônios, eles são esfomeados e sedentos de inquietações e conflitos, é isso que os mantêm vivos. Quando nos escondermos, por meio da preguiça mental, estamos tirando o direito dos neurônios receberem novas informações e criarem oportunidades, de ressignificarmos nossas histórias e reinventamos nossas relações. Isolar-se é vida, esconder-se é a negação da vida. Como vou saber se estou cumprindo o isolamento e não apenas me escondendo? Nosso desafio Faça uma lista dos projetos que se comprometeu no inicio do isolamento, verifique quantos deles, você conclui e, quais teve que adiar por motivos justificáveis. Depois reflita e responda: você foi proativo ou foi contaminado pela preguiça mental? Boa sorte! Sebastião SouzaPsicoterapeuta de casais e famílias

Que pais é este, onde a insensatez é irmã da ignorância

Em conversa com amigos preocupados com a pandemia do COVID-19, incêndios no pantanal e na Amazônia e, de um modo geral, o aumento do índice da violência, todos questionavam: QUE PAÍS É ESTE? – Sant’Anna, 1980 (1). (1) Affonso Romano de Sant’Anna autor do poema “Que País é Este?”, escrito em 1980. A obra é uma crítica a nossa sabedoria popular repetida há 500 anos. O poeta discorre em das estrofes do poema: “Uma coisa é um País, outra o aviltamento”. Em uma outra parte do poema relata: “Há 500 anos caçamos índios e operários,há 500 anos queimamos árvores e hereges,há 500 anos estupramos livros e mulheres,há 500 anos sugamos negras e aluguéis”. E, em nossa roda de amigos, perguntávamos se a insensatez não é irmã gêmea da ignorância, o que mudou? Transformamos estudos e pesquisas científicas em alvo de “chacota e piadas”, minimizando a gravidade da pandemia do COVID-19, dizendo ser apenas uma “gripezinha”. Atribuímos aos indígenas, eternos guardiões das florestas, a culpa pelos diversos incêndios, no pantanal e na Amazônia, para não assumirmos as nossas reais responsabilidades pela destruição do meio ambiente. Mulheres e negros são discriminados como se não fizessem parte deste País. Que País é este, onde uma mulher sofre ameaças de morte, podendo evoluir para homicídio, enquanto os verdadeiros responsáveis, os que deveriam prestar o auxílio fazem pouco caso, quando a vítima vai registrar um boletim de ocorrência, e dizem “é assim mesmo, é só uma briguinha de casal”. Que País é este, onde as autoridade responsáveis por zelar pelas pessoas contaminada pelo COVID-19, dispensadas da necessidade de se realizar licitações, descobrem meios de tirar vantagens na compra de respiradores e construções de hospitais de campanha, que são absolutamente necessários para salvar vidas. Quanta insensatez ou ignorância. Agora nem sei mais qual das duas “qualidades” é a mais significativa neste contexto. Que País é este, que tem um mandatário, um chefe de uma nação que faz um pronunciamento dizendo: “Os indígenas estão destruindo suas moradias e suas fontes de sobrevivência”. Que País é este, onde, depois de mais de 500 anos, ainda escutamos uma autoridade dizer que uma orientação sexual é fruto de famílias desajustadas. Nesse caso, a insensatez é tanta, que acaba realçando os ranços da nossa cultura machista, atribuindo ás famílias o peso de culpas absolutamente desnecessárias, enquanto especialistas e cientistas, do mundo todo, refutam tal hipótese. Algo deve estar equivocado, o que mudou? A ignorância está superando a insensatez ou ambas estão competindo para ver qual delas vai ganhar o prêmio de “A razão mais insensível do Ano de 2020”. Este é o País de 500 anos atrás e será o mesmo nos próximos 100 anos, se não aproveitarmos o momento para mudarmos nossas crenças com relação aos diversos problemas e catástrofes que assolam a nossa nação. Todos somos corresponsáveis, pela disseminação do vírus COVID-19, pelos incêndios no pantanal e na Amazônia, e pelo aumento da violência de um modo geral. Cabe a cada um de nós questionarmos sobre que País queremos legar aos nossos filhos, netos e bisnetos nos próximos 100 anos. O que podemos fazer? Podemos tentar incutir, em nossos descendentes, a preocupação com ele próprio e com o próximo. Um professor de filosofia, Cláudio Upiano, me disse uma vez, que isso, só vai mudar no dia, em que uma turma de “pirralhos” do jardim da infância, percebendo que a professora continua dando aula, começarem a bater os seus pezinhos no chão avisando que está na hora do lanche. Procure ensinar seus filhos, netos e bisnetos a não deixarem a insensatez e a ignorância fazerem parte de suas vidas. Procure ajudá-los, por meio de conversas, filmes, livros, fábulas, metáforas, histórias e analogias, para que possam encontrar o verdadeiro sentido da solidariedade humana. Não espere, comece agora. Se possível para ontem. Desculpa, esqueci de mencionar que a insensatez e a irmã gêmea da ignorância, mas tem um grau de parentesco forte com “ervas daninhas”, que se alastram com rapidez em direção aos corações insensíveis á dor do próximo. Cuide-se! Sebastião SouzaPsicoterapeuta de casais e famílias

Os gatilhos mentais / emocionais que disparam a violência

Identificar possíveis gatilhos das doenças mentais / emocionais, com relação a violência, é uma tarefa uma tanto complexa. Para tal, vou tentar reproduzir essa linha de pensamento, por meio, de uma metáfora. A metáfora Imaginemos que o mundo das nossas emoções fosse um semáforo, tipo esse que serve para sinalizar o trânsito. Provavelmente se usarmos os mesmos critérios do código de trânsito, a cor vermelha sinalizaria para paramos, a amarela, atenção e sobreaviso e a verde o sinal está aberto, indicando que poderíamos prosseguir. As cores desse semáforo representam os vários padrões de comportamentos aprendidos em nossas histórias familiares, sendo fatores imprescindíveis para nossa saúde mental / emocional. Se algumas circunstâncias familiares impediram que o nosso semáforo fosse ligado, ou se por ventura a saúde mental / emocional não foram prioridades, possivelmente teremos dificuldades em fazer a identificação e a distinção entre os possíveis gatilhos das doenças mentais / emocionais, frente a um possível agressor ou agressora. Como identificar o grau de agressividade e violência de um possível agressor(a)? A resposta seria: Por meio, dos sinais que a pessoa recebe do seu mundo das emoções, ou seja, do seu semáforo emocional. Caso você tenha dificuldade em identificar os sinais, procure ajuda, pois provavelmente o seu semáforo emocional está com defeito ou desligado. É através da minha reação emocional que tento medir a temperatura da possível violência do agressor(a). Nem sempre a vida nos permite fazer escolhas do tipo: como gostaríamos que fossem nossos parceiros(as), nossa profissão, nossa condição de vida mas, como disse Sartre (1948): “a não escolha é uma escolha”. Sempre podemos tentar fazer novas escolhas. Em momento algum estou tentando justificar a violência, meu papel é simplesmente alertar que os indicadores dos gatilhos das doenças mentais / emocionais que geram a violência podem ser minimizados ou eliminados. Sabemos que parte significativa da nossa população vive em condições precárias e, possivelmente, estejam mais preocupadas com a sobrevivência do dia-a-dia do que com suas emoções, e claro, isso faz sentido. Por outro lado, em uma cultura machista, preconceituosa, com discriminações raciais, religiosas e de gênero provavelmente os nossos semáforos emocionais (estejam) desligados. Nosso semáforo Nosso semáforo deveria estar sempre na cor verde, deste modo não cultivaríamos a violência e nem banalizaríamos o dom precioso da vida. Todos os dias, a mídia apresenta dados que comprovam o aumento na escalada da violência e de mortes por motivos absurdos , gênero, preconceitos e discriminações (banais) e, entre eles, o de mulheres vítimas de feminicídio. Dados comprovam que a policia matou mais nesses últimos meses do ano, do que no mesmo período do ano anterior. São notícias como essas que dão a impressão que, estamos voltando ao tempo da barbárie, no qual ser machista, violento e usar o poder para oprimir os mais vulneráveis, é “símbolo de virilidade”. Os descasos e a desvalorização da vida, são indicações que, parte significativas das pessoas estão com os semáforos desligados, ou seja, como nos sentimos impotentes frente a violência, acabamos por causa disso, justificando nossa escolha de mantermos nosso semáforo desligado. Existe um ditado que diz ”o que olhos não veem o coração não sente”, não gosto muito deste ditado pois, neste caso, estaríamos condenando todas as pessoas, que não querem ver, a serem violentas e isso não é verdade. Desligar os semáforos emocionais pode ser um chamativo para que, mais cedo ou mais tarde, a violência venha bater na nossa porta. Pense nisso, e ligue o seu semáforo agora. Boa sorte! Quer saber mais? Clique AQUI e leia nosso post: Como identificar os “gatilhos” que disparam nossos conflitos emocionais Sebastião SouzaPsicoterapeuta de casais e famílias

Lixos emocionais, quando trabalhados, são recicláveis

Desde a chegada da pandemia, estamos vivendo um momento singular de nossas vidas. O COVID-19 transformou o mundo em refém dessa situação catastrófica. Nesse post iremos realizar reflexões baseados na pergunta abaixo: Por que algumas pessoas ficam paralisadas diante da situação de serem reféns da pandemia e outras seguem em frente e tentam reinventar-se? Reflexões O sentido da expressão “lixo emocional” no título desse texto tem o significado de “questões emocionais não resolvidas”. Tal compreensão é importante para evitar interpretações distorcidas quanto ao trabalho dos respeitosos profissionais, que removem os nossos lixos orgânicos e os demais lixos da vida cotidiana. Diante da pandemia, em geral, as questões emocionais, são colocadas para serem resolvidas num segundo momento, principalmente pela emergência que requer a preservação da vida frente pandemia. Iremos expor 3 tipos de manifestações comportamentais que caracterizam pessoas que ficam paralisadas e as que se diferenciam frente à pandemia. Podemos supor que essas manifestações comportamentais já existiam, ou não, sendo que a pandemia apenas as potencializou. São elas: 1- Os acumuladores São aquelas pessoas que postergam as situações emocionais não resolvias jogando tudo para frente. Conhecidas como aquelas que utilizam o “empurrar com a barriga”. Como diz um amigo: “ Tem muitas pessoas nesse time”. 2- Os catadores São pessoas que vivem a vida do outro, quando na maioria das vezes, não sabem o que fazer da própria vida.Para não enxergarem “os vazios” da sua própria vida, projetam todas as suas dificuldades emocionais no mundo externo e consequentemente nas pessoas.Vivem como super-heróis da vida alheia, funcionando como base no seu processo de se auto enganar 3- Os investidores nos lixos emocionais São pessoas que acreditam e apostam que no futuro as coisas vão melhorar, porém, sem fazer nada para que isso aconteça.Correm atrás de um futuro melhor, fazendo mais do mesmo, evitando conflitos e mudanças. Fogem do passado, estão ausentes no presente, e nomeiam o futuro como salvação.Sem sair da “zona de conforto” esperam transformações no futuro de forma mágica.Colocam todos as suas expectativas e projeções, a partir de crenças e teorias, que não foram testadas e nem validadas na pratica do dia-a-dia.Procuram fazer com que o “impossível se torne possível”. Buscam uma forma mágica de não enxergar os lixos emocionais não resolvidos.Não é o que pandemia faz das pessoas e sim o que elas fazem da pandemia. Finalizando Tente identificar se, em algum momento da sua vida, você já se enquadrou em uma dessas categorias: Acumulador, Catador ou Investidor nos lixos emocionais. Boa Sorte! Sebastião SouzaPsicoterapeuta de casais e famílias

O Método Sistêmico/Vincular

O Método Sistêmico/Vincular foi criado em 2008, pela Escola Vinculovida e tem como objetivo investigar e compreender as crises emocionais das famílias, casais e indivíduos. Esse método contribui para que os clientes elaborarem suas questões emocionais não resolvidas no passado e, por vezes, potencializadas no presente e, que podem serem trabalhadas e reconstruídas no futuro. O Método de Ligação Sistêmica ou Método Sistêmico/Vincular apresenta três etapas distintas: 1- Contextualizador Sócio-Histórico Esta etapa busca compreender e mapear as experiências de vida (anamnese) do casal, família ou indivíduo, a fim de estudar seu processo histórico de acordo com as fases de transição do ciclo de vida familiar. Durante este período, a tarefa mais relevante para o planejamento psicoterapêutico é a compreensão do padrão estrutural, que é composto pela dinâmica relacional do casal, família ou indivíduo, a aquisição de informações históricas familiares e o genograma. 2- Integrador Nesta segunda etapa, é necessário assimilar o passado e o presente do paciente, constrangido pelos limites afetivos que vivenciaram na família de origem e que desenvolveram a sintomatologia em questão. Tais experiências são atualizadas e reencontradas no presente e percebidas a partir de padrões emocionais repetitivos. Assim, é realizada uma investigação desses padrões, que são recolocados e reencenados por experiências vividas e não desenvolvidas que foram congeladas no tempo. As tarefas relevantes para o diagnóstico relacional são o levantamento da missão da família, a avaliação de seu papel na família nuclear e a diferenciação da pontuação do Self em relação à família do paciente. 3- Interveneer Nesse estágio, o psicoterapeuta atua com o paciente e sua família de origem por meio de exercícios, tarefas e rituais, a fim de reconstruir e ressignificar os limites pessoais, criando novos significados para o funcionamento do sistema familiar. Essas atividades fornecem novas informações para o casal, a família e o indivíduo, promovendo o fenômeno da autopoiese. IMPORTANTEO Método Sistêmico/Vincular foi publicado como parte de um artigo na revista americana Frontiers com o título “Psicoterapia e Inteligência Artificial: Uma Proposta de Alinhamento” de autoria de Flávio Luis de Mello e Sebastião Alves de Souza.Você poderá ler a íntegra do artigo clicando AQUI. Sebastião SouzaPsicoterapeuta de casais e famílias

A arte de conviver com as impotências

Impotência é vida e aprendizagem. Potência pode ser força, poder ou aprendizagem depende do uso. Viver é saber administrar impotências. Ao nascermos já começamos a conviver, em nosso dia a dia, com as impotências. A forma com lidamos com as impotências durante a nossa vida é que vai dar ou não sentido a nossa morte. O desemparo inicial do bebê representa o auge da impotência e, sem cuidados, o bebê morreria ao nascer. O desamparo e a dependência são primos da impotência. A linha que separa a potência da impotência é muito tênue. Tentar transformar impotência em potência é armadilha. A impotência é inata, a potência é circunstancial. Todos nascemos, vivemos e morremos tentando compreender este fenômeno de sermos ao mesmo tempo potentes e impotentes. A vida é potência e impotência. O que vai dar sentido e significado a nossa vida é como aprendemos lidar com o fenômeno paradoxal da impotência e da potência. A potência expressa pela pulsão de vida e a impotência expressa pelas perdas, frustações, fracassos, perda de um ente querido, enfim circunstâncias do nosso dia a dia que são inevitáveis, reais ou não, que não dá para fugir. As expectativas e projeções que temos sobre as pessoas que amamos ou estamos ligados afetivamente são fontes de impotências. A potência e a impotência são duas facetas da mesma moeda. Na impotência aprendo, na potência me cuido para não abusar do meu próximo. A potência é falsa, a impotência é autêntica. Viver a impotência é uma das formas de expressar a frustação de não poder transformar o outro. Ela é cuidado e respeito. O uso da força e do poder da potência frente ao outro é autoritarismo e falta de sensibilidade. Quem ama é potente e impotente frente ao amor. O amor prescreve o lugar de aceitação e acolhimento. A aceitação pode trazer impotência: “o outro não é o que esperávamos”. A aceitação é potência frente à impossibilidade de transformar o outro naquilo que gostaríamos que ele fosse. Por fim, ao fechar este artigo, pulsa dentro de mim, dois sentimentos: Primeiro: o sentimento de potência por ter a coragem de expor parte do meu convívio com meus entes queridos. Segundo: o sentimento de impotência, que me dá medo e insegurança por não saber da aceitação dos leitores sobre minha forma de interpretar vida. Faça uma lista com cinco situações em teve que encarar algumas impotências vividas nosso dia a dia. Faça outra lista com cinco situações em experienciou a o sentimento de potência. Compare as duas listas, e veja o que aprendeu ao ter que lidar com estes dois sentimentos. Caso ainda esteja “congelado” no tempo por alguma impotência vivida ou que, nos momentos de potencia, não soube lidar e acabou abusando do seu próximo, procure um profissional, ele poderá te ajudar a compreender o que é a arte de ser potente e impotente ao mesmo tempo. Sebastião SouzaPsicoterapeuta de casais e famílias

Pais reféns, filhos ditadores

É comum os pais chegarem aos consultórios clínicos com a seguinte pergunta: “Por que nossos filhos nos odeiam, nos rejeitam e são autoritários conosco? Onde será que  erramos?” Essa situação lembra uma história. Certa vez, durante um workshop aqui no Brasil, perguntaram para o médico Claude Olievenstein como se forma uma pessoa com comportamentos autodestrutivos/destrutivos ou um dependente químico. A resposta dele nos serve para fazer uma analogia com o tema deste artigo, sobre pais que se sentem reféns de seus filhos ditadores. O professor respondeu, usando uma metáfora: “Vocês conhecem aquelas dunas de areia do Nordeste? Pois é. Elas são formadas por vários componentes, mas os três mais importantes são os grãos de areia, o pé de capim e o auxílio do vento. Um dia o vento soprou um grão de areia e esse parou em um pé de capim. No outro dia o vento soprou dois grãos de areia que pararam nesse mesmo pé de capim e assim aconteceu sucessivamente. Após alguns anos, os grãos de areia foram se acumulando em torno do pé de capim e hoje temos  as famosas  dunas nordestinas”. Os pais presentes, após momentos de reflexão sobre o que ouviram, concluíram que realmente trabalharam duro, tiveram uma vida honesta, construíram um patrimônio financeiro razoável e deram uma  boa educação aos filhos, na expectativa de que eles fossem  gratos e reconhecessem seus esforços, o que nem sempre acontece. Nesse mundo mágico, preparado pelos pais para seus filhos, é possível detectar, logo no início da infância e adolescência, que quando os pais não colocam limites, não traçam regras de convivência familiar e evitam conflitos para não magoar os filhos, acabam acumulando questões não resolvidas, formando uma espécie de duna irreal ou fantasiosa. Proteção “bumerangue” A falta de limites e regras para crianças e adolescentes pode ser comparada àquele grão de areia que o vento soprou e que parou no pé de capim, transformando tudo em uma duna. Nas famílias não é muito diferente: a ausência de regras e limites acaba acumulando questões não resolvidas, o que pode desencadear processos autodestrutivos e destrutivos ou, até mesmo, um quadro de dependência química. Vale ressaltar que, na maioria das vezes, os pais constroem projetos e criam expectativas irreais com relação à vida dos filhos. Para tentar sustentar esse mundo fantasioso, transformam-se em verdadeiros super-heróis. Esses comportamentos e atitudes dos pais têm como objetivo proteger sua prole das frustrações, decepções e dos fracassos que encontrará pela vida afora. A proteção excessiva tem um “efeito bumerangue”, já que os filhos nessa situação, em sua maioria, ficam vulneráveis ao convívio social Essa vulnerabilidade surge por meio dos insucessos, derrotas e fracassos que eles terão de enfrentar frente a diversas dificuldades que a vida impõe. De um modo geral, essas dificuldades são cobradas dos pais em forma de dívidas emocionais, dívidas essas que são impagáveis, o que transforma os filhos em implacáveis ditadores familiares. Nesse sentido, parece que quando as relações entre pais e filhos caminham nessa direção de reféns e ditadores, uma das possibilidades para quitar as dívidas emocionais é a reconstrução e a re-significação dos vínculos afetivos nas relações familiares. Será que os pais e filhos estão dispostos a mexer nessa relação? Ao que tudo indica, essas relações são análogas à formação de uma duna, só que construídas não com areia, mas com mágoas, raivas e frustrações. Para os pais e os filhos que desejam construir relações sadias, fincadas em solo fértil e não na areia, podemos afirmar que a mudança é possível. Podem contar conosco para ajudá-los. É só entrar em contato.

Seu Casamento é uma gaiola de ouro ou uma teia de aranha?

  Você vive uma dessas situações na sua relação? Conhece alguém que passe por isso? Quem sabe algumas das informações que quero compartilhar neste artigo possam contribuir para aliviar, minimizar ou libertar você ou seu amigo dessas formas aprisionadoras de parcerias conjugais, construídas especialmente nos períodos de crise. Mas talvez você seja um afortunado e não vivencie nada disso. Se assim for, parabéns! Continue driblando as crises do seu relacionamento, pois, provavelmente, você é um artista ou um mágico. No entanto, caso seu casamento tenha se transformado em um emaranhado de armadilhas impossíveis e imagináveis, então seja bem-vindo ao mundo dos mortais. Nem sempre o sonho de um casamento sem conflitos é possível, principalmente quando se trata de relacionamentos humanos. Na maioria das vezes, desejo e realidade são incompatíveis, raramente se tornam complementares. Porém, não fique assustado ou triste. Saiba que os sentimentos de frustração, fracasso, rejeição e os desencontros diante nos relacionamentos são algumas das experiências que permeiam as dinâmicas conjugais.É comum encontrarmos casais apaixonados que se declaram diariamente os mais sortudos do mundo: “Encontrei minha cara-metade, minha alma gêmea, meu par perfeito”. Então, caro leitor, é aí que mora o perigo. Isto porque o desejo e a realidade se sobrepõem, e é assim que se inicia uma procura pela completude, levando os cônjuges a uma “cegueira conjugal aprisionadora”.       A gaiola que aprisiona   O casamento “gaiola de ouro” aparentemente parece um modelo bem-sucedido. Quando acrescido de status social e econômico, melhor ainda, afinal, quem compara a vida conjugal a ouro é reconhecido e referendado pelos seus pares, já que ter uma relação no estilo “sonho dourado” faz parte da expectativa de todos os que se casam. Alto lá! Não podemos esquecer que os cônjuges permanecem presos. É sempre bom lembrar que, apesar de ser de ouro, é uma gaiola, e quem está preso não pode voar para muito longe. Ao utilizar a metáfora “gaiola de ouro” como um padrão relacional aprisionador dos cônjuges é importante compreendermos quando esse modelo de relacionamento começou a ser construído. Muito provavelmente, os primeiros materiais conscientes e inconscientes usados para o início da construção da “gaiola de ouro” dos cônjuges fazem parte de suas histórias individuais trazidas das famílias de origem. De modo geral, essas histórias carregam consigo algumas questões não resolvidas como: segredos, crenças, lutos não elaborados, conflitos com o pai ou a mãe, lealdades familiares. As questões não resolvidas nas famílias de origem dos cônjuges têm a capacidade de transformar o material de primeira mão utilizado pelo casal durante o casamento em material de segunda, ou seja, as questões não resolvidas nas famílias anteriores contaminam o material usado para construir a “gaiola de ouro” que, na verdade, nunca foi de ouro, no máximo banhado a ouro, ou quem sabe de prata, bronze ou arame comum. Como olhar para tudo isso? Leia a segunda parte deste artigo e saiba mais. Nas partes 1 e 2 deste artigo, que você pode ler no nosso site, discutimos um dos modelos de casamento, a gaiola de ouro, que gera um vazio nos cônjuges focados em aplacar suas frustrações e mágoas, vivenciadas em suas famílias de origem, com status social e intelectual. Nesta última parte do artigo, vamos tratar de outro modelo de casamento, conhecido como teia de aranha. Ele funciona com um pântano, que contém areia movediça. Quanto mais os cônjuges se mexem mais afundam em suas frustações, fracassos, acusações, gerando, em alguns casos, agressões verbais e físicas, cujo resultado são processos de separação conflituosos e intermináveis. A analogia com a teia de aranha é uma forma de elucidar como alguns cônjuges convivem de um modo aprisionador, semelhante à luta dos insetos que caem nas teias armadas pelas aranhas fiandeiras.Assim como os insetos, esposa e esposo são pegos pelas redes das várias situações não resolvidas, oriundas das famílias de origem e, na maioria das vezes, inconscientes e doentias. Tanto os insetos como os cônjuges não sabem que quanto mais se debatem para tentar sair da armadilha, mais aprisionados ficam e correm maiores riscos. De um lado, temos os insetos que, por conta dos movimentos desesperados, anunciam suas localizações para as aranhas fiandeiras por meio da vibração táctil. Do outro lado estão os cônjuges, que tentam resolver os novos conflitos da relação conjugal, que formam a “teia invisível de conflitos inconscientes”, trazidos de suas famílias de origem, usando percepções de mundo individualizadas, inconcebíveis em uma vida que se propuseram a construir a dois.           Abrindo gaiolas e desfazendo teias   Para finalizar esta nossa reflexão, é importante salientar que se o seu casamento é do tipo “gaiola de ouro”, tentar fugir não vai resolver o problema. Lembre-se: quem nunca aprendeu a alçar altos e longos voos libertadores não vai fazer isso fugindo da gaiola que construiu em sua relação conjugal. É por isso que a ajuda profissional pode levar a uma melhor compreensão do motivo que o impediu ou que o impede de se libertar de histórias passadas para poder  voar  mais longe e  mais alto. Nem os pássaros aprendem a voar sozinhos. Eles precisam do apoio dos pais para bater as asas e seguir em frente. A arte de se sentir livre é o exercício das várias experiências relacionais possíveis que o ser humano exercita no seu transitar entre a liberdade individual e os contextos relacionais onde está inserido. Mas se o seu casamento é do tipo teia de aranha, e estiver em crise ou entrar em rota de colisão, com desencontros cada vez mais potencializados, não adianta se desesperar. Quanto mais se debater, mais vai agredir e acusar quem está ao seu lado. Dessa forma, maiores serão as chances de você não encontrar a solução para os sofrimentos emocionais que corroem a relação conjugal. Vale lembrar que, ao se debater durante uma crise conjugal, você estará fornecendo “munição” para  quem dorme ao seu lado. Como diz um velho ditado, “às vezes o silêncio é mais libertador do que mil palavras ofensivas”. Em momentos críticos de crise conjugal é sempre relevante procurar ajuda profissional.

Pai, um ser dotado de muita expertise

  Um amigo meu sexagenário, que chamo de Landim, tem o hábito de sempre que nos encontramos contar algumas histórias, enquanto saboreamos um cafezinho ou até mesmo um chope. Uma dessas histórias vou compartilhar com você, caro leitor. Dizia ele que seu pai era um misto de herói e uma pessoa simples e humilde, muito trabalhador e responsável, porém a qualidade que Landim mais admirava nele era a forma como contava causos mirabolantes. Passou, então, a fazer uma pequena descrição desse homem, um negro, alto, não muito bonito, um ser bondoso, sujeito desconfiado, carinhoso, um tanto arredio, sempre pensativo, que reclamava de não ter tido a oportunidade de estudar. Por isso trabalhava bastante, para dar exemplo a seus filhos e a sua esposa, pois acreditava que um homem que não tem estudo precisa demonstrar sua honestidade por meio do trabalho. Por isso dizia para todo mundo: “Enquanto eu tiver saúde irei trabalhar“. Para ele, quem trabalha um pouco a mais do que a maioria das pessoas adquire crédito com Deus, repetindo o velho ditado “quem trabalha Deus ajuda”. Enquanto Landim descrevia seu pai, os seus olhos brilhavam, denotando muita admiração pelo seu progenitor. Ele falava da curiosidade que seu pai tinha e da facilidade em aprender. O pai de Landim exercia várias profissões como pedreiro, bombeiro hidráulico, pintor de parede, e, em algumas vezes, arriscava-se como eletricista, o que quase sempre se tornava um perigo, pelo simples fato de ser uma pessoa inquieta, podendo causar um acidente. Meu amigo disse que se seu pai tivesse feito terapia, provavelmente o diagnóstico seria de TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade).   Landim sorria ao relembrar as tiradas do seu pai/herói, que dizia, nas suas prosas, que não gostava de pessoas  “preguiçosas da cabeça” . Para ele “essa gente fala que não sabe fazer uma coisa, sem ao menos tentar uma vez”, dando apelidos a esse tipo de pessoa: “Dona não consigo” ou “Senhor não consigo”. O meu amigo Landim relatou, com orgulho, quando seu pai construiu a primeira casa para a família. Ainda menino, ele ajudou cavando os buracos para o alicerce, ressaltando que, apesar de na época ter 11 anos de idade, guarda até hoje na memória essa responsabilidade que lhe foi dada. Contou que esperava ansiosamente a aprovação de seu pai com relação a tarefa que tinha recebido para executar. Era gratificante quando ele a aprovava, dizendo “muito bem! Vamos embora porque hoje nós trabalhamos bastante. Agora é torcer para que Deus não se esqueça de anotar nossos créditos”.   Somos um punhado de histórias   Durante a narrativa das proezas e façanhas de seu pai, em certo momento notei em seu rosto um leve tom de tristeza e sua voz saiu embargada quando relatou não sabia o lugar onde seu pai estava, mas, com certeza, deveria continuar trabalhando. Nunca esqueceu das frases que seu pai dizia como: “Quem trabalha não tem tempo para pensar em besteiras”, e repetia sempre outro ditado: “cabeça vazia é arapuca do diabo”. Não saberia explicar a tristeza estampada no rosto do meu amigo, talvez marcada pelas saudades e sensação de desamparo. Naquele momento, ouvindo essa história, foi possível compreender como a dor da perda de um ente querido deixa sequelas psíquicas e continua fazendo muito barulho na cabeça daqueles que ficam. Talvez os nossos encontros para um café ou chope, juntamente com o rememorar dessa  história,  sirva como  fonte de aprendizado para que eu e meu amigo possamos nos dedicar um pouco mais ao amor e ao acolhimento que temos recebido e doado  aos nossos entes queridos Aos 91 anos, o pai de Landim falava para todo mundo: “Deus é bondoso comigo, pois  sempre me orientou como conduzir minha vida e a de minha família. Me considero um bom aluno. Acho que adquiri alguns créditos com o Criador”. Sua crença de que tinha crédito com Deus o levava a pedir favores ao Criador: “Gostaria de morrer primeiro que qualquer uma das pessoas que amo”, ou seja, antes dos filhos, netos, bisnetos e esposa. Foi assim que aconteceu. Pode-se dizer que os créditos valeram e que ele foi um sortudo. Essa faceta do pai de Landim também mostrava um lado meio pretensioso. Afinal, ele acreditava que tinha créditos com o Todo Poderoso, como se pudesse manter uma poupança para a vida eterna.   Créditos do Banco Central do Criador   Em uma de suas caminhadas matinais, Landim e seu pai entraram na igreja para assistir à Missa. Como não estavam com roupas adequadas para aquele evento, porque vestiam bermudas, regatas velhas e surradas, chinelos de dedo, meu amigo comentou: “O senhor não acha esquisito entrarmos na igreja? Todo mundo está arrumado, com roupas novas e bonitas, e nós estamos bagunçados”. Mal acabou de argumentar, o pai deu a resposta: “Já te falei. Deus dá um desconto, porque eu tenho crédito lá em cima”, e abriu um sorriso maroto com o canto da boca. Landim confidenciou que seu pai pediu para ele seguir devagar na vida, e que, de preferência, vivesse intensamente cada história construída com as pessoas do seu convívio, pois as histórias são formas de mantermos vivos aqueles que amamos.   Também desabafou, dizendo que não sabia se teria a honra de obter o crédito que seu pai sempre teve com o Criador, ou seja, morrer antes das pessoas que amava. Mas de uma coisa ele tinha certeza: estava tentando ser melhor a cada dia, como  ser humano, marido,  pai,  filho, avô, procurando seguir o conselho de seu velho pai, pedindo a Deus para contabilizar seus créditos, se é que estava sendo  bom aprendiz. “Nossa!”, exclamou de repente, “estou ficando igual ao meu pai, me achando. Nem sei se Deus tem banco mesmo. E, se tem, pode ser que meu nome esteja sujo no Banco Central do Criador (BCC)”. Rimos juntos desses deliciosos delírios, inspirados no pai de Landim. Pouco depois, ele coçou a cabeça e concluiu: “Pensando bem, se não fosse meu pai, não estaria aqui para contar essas pequenas histórias. Por isso, sou eternamente grato a