“Meu mundo desabou! ”. “A vida não tem mais sentido! ”. “Nada mais será como antigamente! ”…

Essas frases, ditas comumente, chamam atenção não só pelo desânimo, denotando a perda da esperança em um futuro melhor, mas, também, pela tristeza que carregam e que envolvem a pessoa que está vivenciando um momento no qual a vida parece perder seu significado.

Tais expressões são motivos de estudos e pesquisas para entender os motivos que levam indivíduos a chegar a esse nível de pessimismo. Por que, diante de obstáculos, elas se entregam à tristeza e frustração, sem vislumbrar o futuro?

Em 1994, o professor doutor Paul Watzlawick organizou um livro contendo vários artigos. Em “A realidade inventada” talvez estejam algumas respostas sobre o porquê do desencanto das pessoas diante daquilo que elas mesmas traçaram para suas histórias pessoais. Uma delas é que, ao construímos nossa realidade, passamos pela nossa história.

Por isso, o objetivo deste artigo é contribuir para que você, leitor, possa identificar e elucidar como constrói a sua realidade, a partir dos lastros históricos

Um exemplo é a morte de um dos membros da família. Essa perda tende a desencadear dor insuportável em todos, porém, para a (o) esposa ou (o) ou filho (a), o fato toma uma dimensão bem mais ampla, como se a vida perdesse o sentido. Na tentativa de suportar tamanho sofrimento, o psiquismo sugere como alternativa fugir para um mundo de fantasias, na tentativa de amenizar, aliviar e até esquecer a dor insuportável.

É bem possível que, com o passar do tempo, essa forma de enfrentar os sofrimentos psíquicos ou emocionais, gerados pela perda, não se sustente na convivência familiar quando surgir outra ameaça de morte de um ente querido. Isso significa que aquele luto não elaborado no passado tende a retornar, desconstruindo a fantasia criada para suprir a outra perda. Nesse momento, é bem possível que a (o) esposa (o) ou filha (o) tenha de reconstruir sua realidade inventada diante da morte.

Se em cada fase de transição do ciclo de nossas vidas estamos em diferentes processos de interação com o meio, promovendo transformações e sendo transformados, criar uma realidade paralela, para fugir de eventos previsíveis ou imprevisíveis, é se auto sabotar. Isso significa que, para a pessoa, esse mundo criado não caiu, nem desabou, mas foi construído em cima de uma base fantasiosa.

Muitas vezes a dor emocional nos faz usar uma racionalidade quase que patológica para fugir das emoções doloridas, não elaboradas. Nesse momento, o perigo se instala, porque é quase certo que, em alguma hora, o fator emocional precisará emergir, como um vulcão há anos inativo. De repente, ele entra em erupção e destrói tudo o que encontra pelo caminho.

Você conhece aquela música do Chico Buarque, “Bom Conselho”? Ela diz, em uma de suas estrofes:

Ouça um bom conselho, que lhe dou de graças: inútil dormir que a dor não passa”.

Parafraseando-a: “Ouça um bom conselho, que lhe dou de graça: inútil fugir que a dor não passa”…

As dores emocionais, a que todos nós estamos sujeitos, quando não resolvidas, retornam por meio de padrões emocionais repetitivos.

Viver a realidade dura e crua, seja ela qual for, nos coloca diante de nossas vulnerabilidades e fragilidades emocionais. No entanto, se elas forem trabalhadas, não nos enlouquecerão. Mas, se nossa opção for pela fuga, a fantasia irá nos entorpecer, o que nos levará à sensação de sermos “impostores” de nossas vidas.  A fantasia se transforma em couraças e armaduras de defesa que acabam por engessar o modo de viver, para evitar o contato com os sentimentos, na expectativa de não sofrer.

Tenham em mente que as realidades são construídas a partir de nossas percepções sobre os valores éticos, morais, culturais, políticos e espirituais. Neles temos de nos basear para nos reerguer diante da dor, sem fugir dela.   Como cantava a incrível Maysa, “Meu mundo caiu”… Se este é o seu caso, aprenda a se levantar para não se perder mais.

Sebastião Souza
Psicoterapeuta de casais e de famílias

A realidade fantasiosa