Em recentes estudos com amigos da universidade, ficamos encarregados de estudar alguns artigos científicos sobre o processo do lixo e de sua coleta, na cidade de São Paulo, em função de uma pesquisa que será realizada sobre catadores de papelão, mais especificamente  na região do Itaquera.

Qual não foi a nossa surpresa, ao nos darmos conta que ao sentarmos em volta de uma grande  mesa, começamos a falar do nosso lixo pessoal;  entendendo aqui a palavra lixo como uma metáfora das frustrações, sofrimentos, misérias emocionais e materiais vividas por aquele grupo nas suas respectivas infâncias e adolescências,  o que possivelmente estava nos abrindo possibilidades de ressignificar os nossos lixos internos e transformá-los em construções luxuosas de novas formas de nos relacionarmos, como seres humanos enriquecidos de experiências difíceis, porém enobrecedoras no sentido de que o verdadeiro ser inteligente é aquele que aprende com a experiência.

A arte de transformar lixo em luxo é ter a capacidade de  transcender aos sofrimentos e dar novos sentidos de competência, ou seja, sair da situação de sobrevivência na tentativa de encontrar a qualidade do viver.

Era unânime entre os componentes da mesa as semelhanças entre as várias matrizes familiares ali presentes. Todos tínhamos muito medo do “fantasma da miséria”, podendo ser ele de ordem emocional ou material, parece que o mesmo ficava impregnado para sempre nas nossas histórias de vida transgeracionais.

Começamos a perceber que  como seres humanos não tínhamos que ter medo do nosso passado, e que poderíamos aprender com ele, e era isso que estávamos fazendo através das releituras de nossas vidas, e com muito orgulho de podermos expor nossas “fragilidades” em grupo e nos sentirmos acolhidos e no aconchego de uma solidariedade mútua até então não vivida por aquela equipe.

Enfim, uma teia de histórias familiares que poderíamos pensar que era comum a muitas pessoas, porém para nós era de grande serventia, pois nos mostrava mais uma vez que antes de ir a rua pesquisar os catadores de papelão (lixo) era preciso conhecer um pouco do lixo interno de cada um de nós.

Afinal, em cada um daqueles catadores de papelão a serem pesquisados, existia uma alma humana que por determinada fatalidade teve que mesclar o seu lixo humano com o lixo da rua. E quem sabe um dia poderá ressignificar sua história pessoal e  sentir-se digno de sentar à mesa e orgulhar-se de ter conseguido sair da condição sub-humana em que vivia.

Como dizia o grande compositor “viver, e não ter a vergonha de ser feliz. Cantar a beleza de ser um eterno aprendiz. Eu sei que a vida devia ser bem melhor, e será, mas isto não impede que eu repita: é bonita, é bonita, e é bonita.” (Gonzaguinha)

Um abraço a todos.

Angela Elisete Caropreso Herrera

O luxo do lixo