De modo geral, pessoas de temperamento mutável, inquietas, inconstantes e imprevisíveis incomodam bastante e são pouco aceitas pelos pares ou grupos.

Temos o hábito de estereotipar e imaginar padrões e regularidades comportamentais para aqueles que convivem conosco. Quem deseja ser aceito e acolhido pelos seus tenta corresponder aos estereótipos, caso contrário será visto como um elemento estranho ou estorvo.

Pensemos em uma criança que, desde cedo, não aceita as regras impostas pelos pais. Ou, ainda, a esposa que não sabe conviver com o grupo de amigos do marido, por abusarem do álcool ou terem o hábito de contar piadas machistas e preconceituosas. Essa criança e essa esposa, com o passar do tempo, poderão se tornar personas non gratas em determinados ambientes. Por quê? Porque é difícil ser “vilão” em terra onde todo mundo quer ser o “mocinho”.

Ensinaram – e aprendemos muito bem – que a vida, em si, tem uma regularidade, seja na família, no casamento, nas vidas pessoal e profissional. Mero engodo. Passamos a interagir com o mundo, sempre com a sensação de que algo está em desordem. Trabalhamos para atingir uma segurança futura e evitar episódios e acontecimentos que gerem inseguranças e imprevistos.

Sabe aquele ditado “mais vale um passarinho na mão do que dois voando”?  Assim é no trabalho. Algumas vezes, vivenciamos uma servidão voluntária, deixando de nos manifestar, para bancarmos o “politicamente correto”. Raras são as pessoas que internalizam que não dá para viver sempre como os “mocinhos” do filme.

Nas famílias, nos casamentos, na vida interpessoal e profissional, a tentativa de evitar conflitos, contornar a situações difíceis, não querer entrar em choque com ideias com as quais não concorda, são indicadores de autoestima baixa, falta de assertividade e um instinto de preservação pouco manifesto. O medo de enfrentar os conflitos, de correr riscos, para não ficar no papel do vilão, geralmente se manifesta em pessoas que, por viverem experiências traumáticas no passado, em suas famílias de origens (infância ou adolescência), em casamentos anteriores ou na vida pessoal – vivência de preconceitos, bullying –, ou até mesmo em situações de desemprego, usam esse mecanismo como forma de compensação.

Há um pensamento mágico nessa defesa: se eu ficar “bonzinho”, ninguém vai me bater; se eu conseguir crescer pessoalmente e profissionalmente, sem ficar “visível”, ninguém vai me maltratar.

Caso você faça parte desse time, que na hora de fazer um filme, sempre ou quase sempre quer ser o “mocinho”, tome cuidado. A vida prega peças. Ser “vilão”, algumas vezes, é uma fonte de aprendizagem e amadurecimento emocional.

Sugiro um exercício para você analisar se tem assumido mais o papel de mocinho, de vilão ou se está equilibrado e harmônico em seus processos interrelacionais. 
1- Faça uma lista com três itens que deixam você desconfortável quando tem que abrir mão do que pensa ou sente, para evitar conflitos. Um exemplo: quando uma pessoa do seu convívio tem comportamentos inadequados (fumar em casa ou falar muitos palavrões).
2- Identifique quando você aceita esses desconfortos, sem se impor, para não ficar no lugar do vilão.
3- Com base nesse diagnóstico, dê um título para o filme da sua vida, qual o papel que gostaria de representar, qual seria o enredo e personagens que desejaria envolver no enredo de sua vida.

Mocinho o vilão são duas facetas de uma mesma moeda. A troca de papéis é regulada pelo carinho e o amor daqueles que amamos. Boa sorte. Boa “filmagem”.

Sebastião Souza

Um filme sem vilão não tem razão de ser