Entendemos como casamento toda forma de união que se baseia em admiração, amor e respeito. Uma instituição que tem sido pauta de muitas discussões, especialmente quando se torna ponte de conflitos, discórdias, separações e, em alguns casos, divórcios litigiosos, com prejuízos para ambos os cônjuges.

No tratamento terapêutico, faz parte do trabalho do profissional ajudar o casal a desconstruir crenças e mitos que reforçam uma vida a dois como algo insuportável, seja nas sessões durante o casamento ou pós-separação.

Estar casado nem sempre é uma opção. Pessoas casam por diferentes motivos, mas, neste texto, abordarei quando a união acontece em momentos de vida “cheios e vazios”.

O primeiro caso está relacionado a pessoas que se sentem realizadas profissionalmente, financeiramente, materialmente e, muitas vezes, intelectualmente. Sendo assim, sentem a necessidade de ter alguém para dar mais substância emocional à sua vida amorosa e afetiva.

Porém, esse tipo de escolha, para uma necessidade como esta pode ser um tiro no pé. Nem sempre a vida conjugal suprirá carências afetivas que a pessoa carrega consigo de outras experiências e situações de sua vida.

No outro caso, do momento “vazio”, optar pelo casamento pode ser altamente prejudicial. A pessoa, normalmente, está vivendo a angústia de uma perda, uma separação recente, o diagnóstico de doença grave, uma decepção amorosa, que a coloca em um estado depressivo, de origem familiar, pessoal ou profissional. De repente, no meio desse caos, surge alguém idealizado, o “salvador da pátria”. Acreditar que outro ser humano pode “salvar-nos”, quando nem mesmo conseguimos parar em pé, é como acreditar em contos de fadas.

Durante o trabalho terapêutico com casais, é de suma importância que os profissionais ajudem os cônjuges a compreender que a relação conjugal tem um primeiro estágio, o da “conquista”, no qual ambos expõem os pactos explícitos e conscientes. Em outras palavras, para conquistar alguém, precisamos apresentar o que temos de melhor, caso contrário, o outro não nos aceitará, afinal, todo mundo aprecia a “parte boa”, mas, na verdade, temos partes “boas e ruins”.

O segundo estágio da relação é a sua “manutenção”, o que torna a convivência mais complexa. Nesse momento, surgem os pactos inconscientes, o que não foi revelado, surgindo independentemente da vontade dos cônjuges. Nessa fase, os dois precisam se reinventar e recriar, pois a “manutenção” não depende só do relacionamento conjugal, mas, sim, daquilo que cada parceiro exercitou e desenvolveu na sua individualidade e, principalmente, a maneira como lidavam com o prazer e o lazer quando solteiros.

Lançar mão do casamento para se reinventar ou recriar é uma forma de onerar a relação das várias dificuldades que não foram elaboradas na família de origem, na infância, adolescência e vida adulta, antes da união. Fica relativamente mais confortável dizer que o casamento piorou a vida da pessoa. Difícil é identificar o que ela queria e como vivia quando solteira.

Se a pessoa nunca assumiu para si o “leme” de sua vida, não será o casamento responsável por desviar trajetórias de sua história pessoal, relacional, familiar e profissional. Provavelmente, antes da união, havia muitas pontas desconectadas.

Para quem sente que o casamento é um problema em sua vida, vale este exercício: crie uma linha do tempo bem detalhada, em que estejam identificados os acontecimentos da infância, adolescência e vida adulta, antes de casar. Acontecimentos que deixaram marcas positivas e aqueles que machucaram e não cicatrizaram ainda. Também assinale de que forma lazer e prazer foram vivenciados em cada etapa. Era uma pessoa criativa, que se doava? Ou esperava que as coisas acontecessem por si só?

Com esse resgate, é possível transformar o casamento em um excelente laboratório experimental e fraternal, tirando o parceiro do lugar de inimigo e propondo que ambos possam evoluir juntos, com aprendizados comuns e individuais.

Ainda é tempo de assumir o leme de sua vida. Afinal, “o caminho se faz caminhando”.
(Varela, 1970)

Sebastião Souza
Psicoterapeuta de casais e de famílias

Depois do casamento a vida piorou… Será?