Quando pensamos na relação conjugal, a partir do paradigma sistêmico, sempre levamos em consideração que a formação do casal nunca é composta por dois elementos e, sim, três, ou seja, a individualidade de cada cônjuge mais a relação que os dois estabelecem.

Essa é uma afirmação de difícil compreensão para os casais que chegam ao consultório, procurando ajuda. A maioria já traz a solução, principalmente quando a questão refere-se ao adultério, em que as sentenças estão definidas pelo casal ou por um dos cônjuges, ou seja, o culpado é sempre o autor ou a autora da traição e a vítima é o (a) parceiro (a).

Esta é uma forma simplista de ver a vida, com base em um pensamento linear, que busca identificar um nexo-causal, comumente relacionando à questão da causa e efeito, como se a convivência a dois pudesse ser considerada algo de fácil acesso.

Não tenho a pretensão de fazer aqui a apologia sobre atos irresponsáveis na vida a dois, sejam eles adultério, consumismo ou posturas narcisistas de determinados homens ou mulheres que se imaginam deuses ou deusas.

Pretendo, como conhecedor da área de casais e famílias, colaborar à ampliação da percepção de certos fenômenos que envolvem os cônjuges que, muitas vezes, nem se dão conta porque estão focados em interpretar fatos de uma forma reducionista.

O conceito que ora divido com você, leitor, é referendado pela ciência biológica que, por sua vez, o emprestou para a ciência social. Como tal, subsidia os estudos de relações familiares, isso é, o cotidiano de casais e famílias. Por exemplo, na combinação química de dois elementos é possível o surgimento de um terceiro, totalmente diferente, fenômeno denominado propriedade emergente.

Tomemos como base a composição da água: oxigênio (O) + 2 átomos de hidrogênio (H) = H2O.

O oxigênio e o hidrogênio são gases, mas, na combinação química de ambos, o resultado é um líquido.

De modo similar é a composição de um casal, formado por personalidades diferentes que, quando em interação, faz emergir uma mente grupal totalmente diferente àquela atribuída a cada um, na sua individualidade. Daí as incertezas da relação conjugal, uma vez que o produto no momento da combinação não pode ser predito.

Considerando a complexidade sistêmica da relação conjugal, que passa por várias crises, não podemos deixar de considerar a história familiar e pessoal de cada parceiro, vivida em suas respectivas famílias de origens. Por isso que muitos dizem: “Não me casei com aquele homem ou aquela mulher e, sim, com a sua família”. Ou seja, a família de origem tem muita influência na vida do casal.

As crises conjugais fazem parte do processo evolutivo de cada cônjuge que, se trabalhadas, podem trazer um novo significado, culminando com o amadurecimento emocional de ambos. Nesse processo, há, portanto, espaço para o crescimento do casal, visto que ele representa uma escolha privilegiada de intercâmbio relacional.

Os momentos críticos da vida a dois podem ser gerados por diversos impasses, dentre eles a falta de diálogo e reflexão sobre a convivência do casal, certas dificuldades no âmbito sexual, conflitos de opinião ou de interesse, além de diferenças culturais. Dessa maneira, o sistema conjugal depara-se com a falta de alternativas para sair do impasse e, como consequência, doenças psicossomáticas podem ser desencadeadas: úlcera, alergia, hipertensão arterial, obesidade decorrente de ansiedade, anorexia nervosa, bulimia, dependência química e fobias.

Da mesma forma, o nível de liberdade nas escolhas é diretamente proporcional ao nível de consciência alcançada por cada parceiro da relação, no momento do casamento, que, por conseguinte, sofre influência direta da fase de transição de cada cônjuge experimentada em sua família de origem, ao realizar mais essa etapa do ciclo familiar vital.

Os fatores desencadeantes das crises conjugais, como adultério, crise financeira interferente na relação, dependência química e jogos de azar, surgem, na maioria das vezes, como um sinalizador da existência de conflitos subjacentes ainda não resolvidos. A fim de solucioná-los, requer-se o auxílio de um profissional especializado em terapia familiar e de casal.

Aprendemos a ampliar a nossa percepção de mundo ao mesmo tempo em que entendemos melhor as nossas relações familiares e conjugais. Isso não significa isentar cada um de sua responsabilidade, mas, sim, ter consciência de que o outro faz parte do nosso processo evolutivo interrelacional. Esse olhar, por sua vez, torna as relações conjugais mais humanas e solidárias, uma vez que não se tem como negar a responsabilidade dos 50% de cada um no processo de escolha do(a) parceiro(a).

Sebastião Souza
Psicoterapeuta de casais e de famílias

Doenças psicossomáticas e crises conjugais: tudo a ver