Como dissemos na parte 1 do nosso artigo, no processo da adição afetiva existe o “vínculo compensatório”, que se dá na maioria das vezes, através do consumismo excessivo, da cultura doentia ao corpo, ou compulsão à comida. Há o desenvolvimento da síndrome da eterna juventude e às vezes, esses indivíduos deixam emergir um narcisismo patológico, ou uma síndrome do perfeccionismo.

No caso da codependência afetiva, existe o “vínculo compensatório”, porém não existe a possibilidade de fazer a substituição do objeto de desejo (no caso, viver uma nova relação e deixar ser amada). Não existe o deslocamento, ou seja, é necessário viver novamente um processo relacional afetivo, para que se possa aferir se houve ou não, uma nova aprendizagem e uma evolução qualitativa, no tocante ao amadurecimento emocional.

Ao possibilitar-se viver um novo processo relacional afetivo, corre-se o risco de desenvolver novamente, uma codependência afetiva. Isso significa entrar no “inferno em chamas”, a fim de verificar se as feridas psíquicas e emocionas estão realmente cicatrizadas.

Sartre dizia que “o homem é condenado a ser livre”. Eu acrescentaria “o ser humano é um ser condenado a viver as relações”.

Então, como “ser livre” e “viver as relações” na dependência de ser amado e aceito pelo outro?

Imagino que para ficar imune à “codependência afetiva” é preciso viver as relações afetivas nas mais diversas complexidades. A arte de viver as relações em sua intensidade e manter a individualidade, é o que dá sentido à nossa vida.

“Sísifo, personagem da mitologia grega, que era o ser aprisionado pelo diabo e acorrentado dentro das entranhas do inferno, consegue escapar”. Porém o pavor psíquico torna-se enorme, e ele imagina como pregar uma peça no diabo.

Cria para o próprio cotidiano a seguinte missão:

passar o resto da sua vida, empurrando uma pedra, de aproximadamente 100 quilos, até o cume da montanha, então deixa a pedra rolar, para baixo e começa novamente a empurrar a pedra para o alto da montanha e assim sucessivamente e ininterruptamente.

Quando questionado explicou: “quando o diabo me olhar, vai imaginar que esta é a minha punição, então vai me deixar em paz.”

Ah! Então é assim? Nós fugimos do diabo, porém não conseguimos fugir do nosso próprio inferno particular.

Assim são as relações de codependência, querendo depender do outro, nos tornamos codependentes. Afinal, não encarar o diabo, é o mesmo que dizer que ele não está dentro do seu psiquismo.

Sebastião Souza

Codependência afetiva: Arte de voltar duas vezes ao mesmo inferno – parte 2