É bem possível que cada um de nós, em nosso inferno particular, deva possuir particularidades e singularidades próprias.

No entanto, ao entrar em contato com a codependência afetiva, tenho observado que tal fenômeno faz emergir no codependente, angústias catastróficas e ansiedades dilacerantes.

Análogas às “chamas ardentes do inferno, acrescidas do seu cheiro de enxofre”. Chamas essas, que possivelmente, foram construídas e vivenciadas pela pessoa durante toda sua vida, a experiência é o fruto de um desejo incontrolável de ser amada e aceita pelo “outro”.

Diabo para que? Ele não é necessário! Quando a alma dói, nosso inferno particular cria quantos diabinhos forem necessários.

Afinal, “o inferno sem diabo, não é inferno”! Impossível pensar em um inferno sem diabo! Corre-se o risco de descobrir que projetamos no “outro” os 100% de lixos emocionais nossos não elaborados.

O coerente seria assumir os 50% dos nossos lixos emocionais, ainda não reciclados, e deixar os outros 50% , para que o “outro” dê conta. Afinal, no acerto de contas, ninguém constrói um  inferno sozinho.

Minha experiência do consultório tem mostrado que a dependência afetiva apresenta-se como um dos mais complexos distúrbios emocionais a serem tratados, felizmente com algum sucesso na terapia.

Esse “vício de amar” é um tipo de vício que traz no seu cerne as memórias seletivas dos momentos afetivos aparentemente “bons”, descartando, por outro lado, os momentos de crise.  Os momentos afetivos aparentemente “bons” trazem as lembranças do cheiro, da “química de pele”, a música, as viagens, o entretenimento. Ao mesmo tempo, minimizam as crises, angústias, ansiedades, agressões verbais, e por vezes, mesmo as agressões físicas.

Nas dinâmicas em que os processos de adição se desenvolvem como o álcool e outras drogas (maconha, cocaína, ectasy, heroína), os tratamentos terapêuticos caracterizados por englobar as psicoterapias, o emprego dos fármacos e às vezes internações, são apontados como as melhores opções, visando à reestruturação e restauração do psíquico do indivíduo.

O elaborar e o ressignificar do aparato mental da adicta parte da premissa que é necessário oferecer ao indivíduo novas representações mentais que possam mudar sua forma de ver o mundo, ao mesmo tempo em que se possibilita o emergir de novos significados alternativos.

Numa tentativa de livrar-se da compulsão às drogas, o dependente substitui o seu objeto de desejo (as drogas), dedicando-se, na maioria das vezes, à religião, profissão, aos estudos, ou a um projeto de vida até então, inexistente. Esse deslocamento é conhecido por “vínculo compensatório”, que substitui o objeto de desejo, no caso a droga.

Na segunda parte de nosso artigo iremos nos aprofundar neste assunto. Não percam!

Sebastião Souza

Codependência afetiva: Arte de voltar duas vezes ao mesmo inferno – parte 1