Os profissionais de saúde e educação, ao discorrerem sobre temas tão complexos e amplos, correm o risco de deixar que seus preconceitos e julgamentos pessoais interfiram em assuntos como os que expomos neste texto. No entanto, parece não existir outra alternativa: ou nos tornamos ousados ou somos omissos.

De modo geral, esses profissionais tentam identificar e investigar como as dinâmicas pessoais, interpessoais, conjugais e familiares podem ser cofatores que contribuem para o desenvolvimento de doenças de pessoas de uma família e o baixo rendimento escolar de crianças e adolescentes.

Os diferentes atos irresponsáveis entre membros da família, do casal, entre namorados, noivos, e até amigos, tendem a desencadear um efeito dominó sobre as gerações futuras e nas suas relações sociais e afetivas.

Nos namoros, noivados e na relação com os amigos, de um modo geral, o efeito dominó se manifesta por meio de mágoas que geralmente se estendem por determinado tempo. Porém, quando não tratadas, podem desencadear sentimentos de rejeições, frustrações e, até mesmo, contribuir para uma baixa autoestima.

Por exemplo, o ato de esconder um segredo, ou mentir para a pessoa com a qual se pretende conviver, pode trazer consequências graves no futuro, inclusive prejudicando os filhos.

Agora deixemos de lado as relações interpessoais e vamos pensar nas relações como um todo.

Por exemplo, o mundo mudou nas áreas da economia, cultura, política e social e, porque não dizer, no que diz respeito à espiritualidade.

Convenhamos: será que as pessoas que tomam decisões irresponsáveis, repercutindo negativamente em uma dessas áreas da realidade humana, têm a dimensão do efeito dominó que seus atos desencadeiam no restante da população?

Imagino que não. Se soubessem, também teriam consciência de que esse efeito dominó pode se transformar no efeito bumerangue, ou seja, as consequências de atos irresponsáveis tendem a retornar, de alguma forma, àqueles que os praticam.

É por isso que considero atitudes irresponsáveis, praticadas pelas pessoas que cuidam da saúde e educação da população, um dos aspectos mais sérios, que talvez uma sociedade sensata e mais coerente deva considerar como crime contra a humanidade.

Um exemplo atual e prático sobre essa questão: a quem está sendo atribuída a responsabilidade pelo nascimento de crianças com microcefalia?

Indo além: e as crianças mal nutridas, que vão à escola se beneficiar da merenda porque precisam completar a aquisição de nutrientes ou ter garantia de pelo menos uma refeição durante o dia, mas que, na verdade, não vão se alimentar, porque algum gestor irresponsável resolveu extraviar a merenda?

Como dizia o filósofo Sartre: “eu sou responsável pelos atos que pratico, e por todas suas consequências que recaem sobre a humanidade”.

O triste é saber que muitos pais, maridos, esposas, namorados, noivas, amigos e os gestores da vida pública não gostam nem praticam esta filosofia.

Talvez, o que eles desconheçam, é que o efeito dominó das suas irresponsabilidades no presente vai se transformar, no futuro, em efeito bumerangue e poderá afetar seus filhos ou descendentes, nas próximas gerações.

Sebastião Souza
Psicoterapeuta de casais e famílias

 

Efeitos dominó e bumerangue e os atos irresponsáveis